Marcelo: A batalha de Stalingrado em 1942 mudou o cenário da Segunda Guerra Mundial, pois foi combate que dizimou em torno de meio milhão dos 600 mil soldados alemães que invadiram a Rússia. Neste momento em diante os nazistas recuam e o exército vermelho começa a avançar em direção a Berlim. "Um apelo urgente a Hitler solicitando permissão para a retirada foi recebido com desdém: A rendição está proibida." A fome e o frio devastaram os alemães.
Fonte: CARROLL, Andrew. Cartas do Front. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
Um soldado alemão chamado Bruno Kaliga escreve à sua família no momento em que a situação em Stalingrado chega ao ponto de máxima desesperança.
Meus amados!
É dia de ano-novo, e, quando penso em casa, meu coração dói. Quão miserável e desesperançoso é tudo aqui. Passaram-se quatro dias desde que tive um pedaço de pão. No almoço, sustento-me unicamente com sopa. De manhã e à noite, tenho direito a um gole de café, e de dois em dois dias recebo cerca de 100 gramas de carne e algumas sardinhas em conserva ou um pedaço de queijo. Fome, fome, fome, e muito piolho e sujeira. Dia e noite, somos atacados por aviões, e o fogo da artilharia jamais cessa. Se um milagre não acontecer nos próximos dias, tombarei aqui. O pior é saber que um pacote que me enviaram com 2kg de geléia e bolo está a caminho. Arsand Hede e Sindermann também enviaram pacotes com bolo e outras delícias. Penso nisso constantemente e começo a ficar louco imaginando que tudo isso não chegará até mim. Embora esteja completamente exausto, não consigo dormir à noite. Em vez disso, sonho de olhos abertos com bolo, bolo, bolo. Às vezes, rezo. Às vezes, amaldiçôo minha própria sorte. Tudo é sem propósito e sem sentido. Quando virá a salvação? A morte virá com uma bomba ou uma granada? Será uma náusea ou uma doença crônica? Todas essas questões nos oprimem sem que cheguemos a qualquer conclusão. E, com isso, vem o desejo constante de voltar para casa, e a saudade de fato se transforma em doença. Como pode um ser humano lidar com isso tudo? Será todo esse sofrimento um castigo de Deus? Meus amados, não tenho permissão de lhes escrever isso tudo, mas não tenho o menor ânimo em meu corpo, e todo o humor desapareceu. Somos apenas um estremecido feixe de nervos. O coração e o cérebro são estimulados de forma repugnante, e um tremor febril nos atormenta. Se me levarem a uma corte por causa dessa carta e me fuzilarem, quero acreditar que isso faria um bem a meu corpo. Estou sem esperanças, e lhes peço, não chorem tanto quando receberem a notícia de que já não estou entre os vivos. Sejam bons uns com os outros, agradeçam a Deus por todos os dias que Ele lhes deu, porque, em casa, a vida é doce.
Com sincero amor,
Bruno

Sensacional cara...Parabéns pela iniciativa...No aguardo por mais cartas!!!
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