terça-feira, 16 de julho de 2013

Hans Fleischer e sua descoberta.

Marcelo: Carta de um soldado alemão que lutou na Primeira Guerra Mundial. A saudação e a introdução se perderam.


Hans Fleischer e sua descoberta.


"O homem precisa sair", pensei comigo mesmo, entregando meu relógio e partindo para uma missão de reconhecimento. Eu queria saber exatamente onde estava.
     Através da vegetação cerrada, segui pelo caminho com um andar lento e sinuoso. A bela mata me cercava. Não muito depois, cheguei a uma área iluminada, e ,diante de mim, estendia-se o castelo do barão de Turckheim, em meio a um jardim florido e em tranquilo silêncio. Fiquei extasiado diante daquela visão e vagarosamente me aproximei das colinas suaves. Atrás de mim, estendia-se Blamont. Era um cenário maravilhoso: essa pequena cidade com seus telhados vermelhos, construída em um vale sinuoso e marcada pelas velhas ruínas desgastadas que Bernhard certa vez destruíra durante a Guerra dos Trinta Anos, e a alta igreja gótica com suas duas torres. Como uma velha e boa cidade suábia,* ali estava, uma imagem de liberdade em meio à destruição da guerra. Atravessei o jardim e os campos, cruzei Weihern e logo me encontrei no terraço de uma gloriosa construção. Tomado de emoção, subi as escadas e entrei. 
     Que trágica imagem de destruição! Toda a gloria e a maravilha deste castelo se transformaram em ruínas e pilhas de escombros, tudo partido e despedaçado, o maravilhoso aposento com sua gloriosa biblioteca e seu santuário pesado e dourado, a sala coberta de rebuscados trabalhos de carpintaria, com sua orgulhosa fileira de retratos ancestrais, a agradável sala de estar com sua mobília inusitada - tudo para sempre arruinado. Com um estremecimento, atravessei os cômodos. Ali! Em um recanto ao fundo - não era aquilo um piano de cauda? Mantive-me no caminho e, então, quase caí de espanto. Incrível! Um piano de cauda: Steinway & Sons, e intocado. Um milagre! Finalmente, finalmente, música! Quão dolorosa era a saudade que sentia da mais sagrada das artes, e agora encontrava, em meio a tantos escombros, um piano de cauda! Aquele aposento tornou-se como um templo para mim, sentei-me ali como se estivesse de frente para o altar. Comecei devagar, meus dedos trêmulos deslizando sobre as teclas semelhantes às que tocara antes. Toda a minha saudade se transformou em tons crescentes que se espalharam pela manhã de verão.  Foram momentos sublimes das jubilosas lembranças do mundo, quando, de novo, pude fazer música pela primeira vez. Ao parar, foi como o despertar de um sonho. 
     Mas ali! O que era aquilo embaixo do piano? Eu estava vendo direito? Isso mesmo, uma partitura musical! Às pressas, tomei nas mãos As valquírias. Aquele foi o auge da minha alegria, encontrar aqui minhas valquírias. Logo, o som preencheu o ambiente. Com um júbilo crescente. Meu toque velho e rude tornou-se mais relaxado, e, aos poucos, havia uma primaveril canção de amor e um íntimo poder emanando de mim com emoção. Do lado de fora, a luta destruidora travada entre a vida e a morte, com todos os seus terríveis incidentes e horrores - aqui, neste momento, uma canção de amor alemã. Instantes raros e inesquecíveis! Sentindo-me profundamente realizado e feliz, fui arrastado de volta ao tranquilo jardim de minha casa. Aquele era meu lar. Eu tocara uma música alemã, e agora poderia retornar à guerra. Abençoado, fui ao encontro de meus companheiros. 
     Hans Fleischer


* Termo latinizado de Schwaben, antigo ducado germânico que incluía Wuttemberg, Baden e parte da Bavária. 

Fonte: CARROLL, Andrew. Cartas do Front. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. 


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Bruno Kaliga, o frio e a fome.

Marcelo: A batalha de Stalingrado em 1942 mudou o cenário da Segunda Guerra Mundial, pois foi combate que dizimou em torno de meio milhão dos 600 mil soldados alemães que invadiram a Rússia. Neste momento em diante os nazistas recuam e o exército vermelho começa a avançar em direção a Berlim. "Um apelo urgente a Hitler solicitando permissão para a retirada foi recebido com desdém: A rendição está proibida." A fome e o frio devastaram os alemães.

Fonte: CARROLL, Andrew. Cartas do Front. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. 


Um soldado alemão chamado Bruno Kaliga escreve à sua família no momento em que a situação em Stalingrado chega ao ponto de máxima desesperança.


Meus amados!
       É dia de ano-novo, e, quando penso em casa, meu coração dói. Quão miserável e desesperançoso é tudo aqui. Passaram-se quatro dias desde que tive um pedaço de pão. No almoço, sustento-me unicamente com sopa. De manhã e à noite, tenho direito a um gole de café, e de dois em dois dias recebo cerca de 100 gramas de carne e algumas sardinhas em conserva ou um pedaço de queijo. Fome, fome, fome, e muito piolho e sujeira. Dia e noite, somos atacados por aviões, e o fogo da artilharia jamais cessa. Se um milagre não acontecer nos próximos dias, tombarei aqui. O pior é saber que um pacote que me enviaram com 2kg de geléia e bolo está a caminho. Arsand Hede e Sindermann também enviaram pacotes com bolo e outras delícias. Penso nisso constantemente e começo a ficar louco imaginando que tudo isso não chegará até mim. Embora esteja completamente exausto, não consigo dormir à noite. Em vez disso, sonho de olhos abertos com bolo, bolo, bolo. Às vezes, rezo. Às vezes, amaldiçôo minha própria sorte. Tudo é sem propósito e sem sentido. Quando virá a salvação? A morte virá com uma bomba ou uma granada? Será uma náusea ou uma doença crônica? Todas essas questões nos oprimem sem que cheguemos a qualquer conclusão. E, com isso, vem o desejo constante de voltar para casa, e a saudade de fato se transforma em doença. Como pode um ser humano lidar com isso tudo? Será todo esse sofrimento um castigo de Deus? Meus amados, não tenho permissão de lhes escrever isso tudo, mas não tenho o menor ânimo em meu corpo, e todo o humor desapareceu. Somos apenas um estremecido feixe de nervos. O coração e o cérebro são estimulados de forma repugnante, e um tremor febril nos atormenta. Se me levarem a uma corte por causa dessa carta e me fuzilarem, quero acreditar que isso faria um bem a meu corpo. Estou sem esperanças, e lhes peço, não chorem tanto quando receberem a notícia de que já não estou entre os vivos. Sejam bons uns com os outros, agradeçam a Deus por todos os dias que Ele lhes deu, porque, em casa, a vida é doce. 
      Com sincero amor,
      Bruno


                                                                     Stalingrado, 1942.